segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Não nasci para ser princesa.

não nasci para ser princesa

Não nasci para ser princesa. E a vida ficou muito mais linda quando assumi que podia ser plebéia sim!

Princesas gostam de súditos. Eu sempre gostei de compainha. Não vou mentir que tenha tentado despertar a princesa que achava que dormia em mim. Na adolescência (nem por um milhão de caralhinhos esculpidos em barras de ouro voltaria a esta fase!), bem tentei ser igual àquelas que gostam dos súditos. Tentei os saltos altos, as saias justas, os vestidos, o glamour (tudo bem que eram os anos 80...e ninguém era glamouroso nos anos 80...) de ser a menina perfeita, elogiada pelos meninos da escola e tudo mais. Mas nas minhas veias corria o sangue de quem tinha feito muito bolo de barro na horta da nona, subido muitas vezes na goiabeira e caído sempre em cima do mesmo formigueiro (que sabia que estava lá!), catado tatu bola debaixo dos tijolos enquanto o Tio da Sanfona arranhava seu acordeão, escorregado de barriga no chão da copa cheio de sabão enquanto minha mãe não estava. Na minha cabeça sempre foi muito mais bacana ver o Falcon (eu e meu irmão temos uma diferença mínima de idade, ele sempre foi minha compainha quando criança) atravessar o quarto pendurado no varal, como se estivesse atravessando uma grande selva, do que brincar de boneca.

Mas segui tentando, por que é isso que a gente faz. A gente tenta se enquadrar naquilo que a sociedade diz para a gente que é o certo. Tentamos nos enquadrar na moda, nos trejeitos, no linguajar, nas atitudes. Tentamos por que temos medo da rejeição. É muito mais fácil ser incluído quando se é um igual. Na verdade, achamos que fomos incluídos, quando na verdade, passamos despercebidos. E vamos nos distanciando cada vez mais do que realmente somos. Achamos que é uma obrigação mostrar fragilidade, mostrar necessidade, mostrar carência. Deixamos de lado nosso conteúdo, crenças e ideais para seguir em meio a um bando. Um bando de iguais.

Hoje eu sei que posso ser muito mais mulher usando um All Star do que um salto alto (que me faz andar feito um orangotango manco..fora a dor...aaahh a dor!). Que minhas calças rasgadas me deixam mais feminina do que se usasse um tailler. Que posso usar blusas de herói, pisar descalça na terra e entrar em casa com o pé sujo, ficar com as mãos imundas e as unhas descascadas cuidando do jardim. Não preciso fazer de conta que gosto de comer salada, que me cuido usando cremes, que prefiro vinho ao invés de uma boa cerveja gelada num copo americano de boteco. E a grande sacada é realmente esta expressão: Eu não preciso! E isso não me faz ser menos ou mais do que ninguém. Me faz ser eu.

No auge dos meus 41 anos, se tivesse que escolher algum personagem do universo imaginário para ser, escolheria o Curupira! Pouco feminino, né? Mas foi esta alma soltinha no mundo, que aprendeu a se virar, que gosta do mato, da natureza, de andar descalça, de se sujar de terra, que não sente necessidade de mostrar fragilidade ou de esperar o príncipe vir socorrer para usá-lo como apoio, que me permitiu ser hoje o que sou. Foi esta linda alma rústica que não me fez ter súditos, mas sim grandes companheiros de aventuras nesta vida!

Eu não nasci para ser princesa. E é assim que sou feliz.