terça-feira, 29 de setembro de 2015

A flor mais linda do meu jardim.


Quando menina era a mais mimada das crianças da rua. Sempre com vestidos engomados e laços de fita no cabelo. Por mais que meus nonos não tivessem condições, faziam de um tudo para que ela fosse a menina mais bem arrumada da rua! Quando moça, parava a rua com sua beleza. Nascida na Pompéia, local que seria seu amor até o fim onde ela dizia ter tido os momentos mais felizes de sua vida, subia e descia as ladeiras do bairro recebendo elogios por onde passava. Uma cabeleireira talentosa, cheia de clientes. Sempre simpática, charmosa e doce. Ela sabia que tinha nascido para ser a flor mais linda do jardim de alguém.

Quando mulher, casou-se com o Rei dos Rústicos! Uma combinação inusitada! Teoricamente, flores e rustiquez são coisas que não combinam. Mas acharam de combinar, na vida é assim. A profissão de cabeleireira parou. Um descendente de Sírios não aceitava que sua mulher trabalhasse fora. Do outro lado, minha mãe foi criada do jeito mais tradicional possível, era uma dona de casa excelente, ajudou a criar meu tio (ele aparecerá por aqui em outro texto...) e na cabeça dela e de muitas naquela época, as mulheres tinham que casar e cuidar de seus maridos. E foi isso que ela fez.

De esposa cuidadosa a mãe exemplar. Foram seis gravidezes! Seis! Das seis nasceram três! E todos em escadinha, tanto que a diferença de idade entre eu, que sou a mais velha, e minha irmã caçula é de seis anos. A partir daí nascia uma Mãe, com este M mais maiúsculo que vocês podem imaginar! Protetora, amorosa, cuidadosa, com suas roupas de flores e dona de um chinelo Melissa de plástico com um saltinho quadriculado que cantava se fosse necessário! O negócio vinha feito um boomerang desgovernado e pegava em quem estivesse na frente! Na hora que o chinelo cantava eu e meu irmão saíamos como loucos pela casa. A gente nunca foi santo. O dito chinelo acertou poucas vezes...hoje penso que poderia ter acertado bem mais...e teria sido muito bom para a gente. Era uma flor em meio aos rústicos. Para maus dos pecados dela, todos em casa puxaram o gênio do meu pai! Conseguem imaginar o que era isso? Ela não tinha boca para ofender ninguém, em compensação a gente e nossa língua comprida. Mesmo assim, mesmo no meio dos espinhos, a flor sempre estava lá.

De mãe exemplar a avó mais amorosa do mundo. Quando achava que não poderia caber mais amor em uma pessoa ela veio e me mostrou que pode caber sim! Foi mãe do meu sobrinho mais velho. Foi mãe do meu filho. Não existia alegria maior para ela do que ver a casa cheia de netos. Por isso, a vida lhe deu sete. Sete netos! A vida sabe o que faz com quem tem amor para dar. Disso eu nunca tive dúvidas.

Do mesmo modo que a vida também, muitas vezes, faz com que a gente tropece nesta estrada, há dois anos atrás foi descoberto que minha mãe tinha câncer...tardiamente. Aquela frágil flor que não tinha boca para nada e no alto dos seus sessenta e cinco anos, teria que enfrentar esta dura batalha. E foi aí que descobrimos que ela podia ser tudo...menos frágil! Lutou contra esta doença bravamente. Mostrou que por trás de cada pétala existia uma guerreira dona de uma força enorme. Enfrentou as químios, os enjoos, as dores, as internações, enfrentou tudo e todos!

Ela assistia eu cuidar das flores do nosso jardim, sentadinha na cadeira enquanto papeávamos e dizia: "Ri, você tem amor nas mãos! olha como está lindo o jardim!". Na minha cabeça eu achava que se cuidasse dela com este amor que ela dizia que eu tinha nas mãos somado a vontade que ela tinha de viver, aquilo passaria. Se eu conseguia fazer uma planta voltar a dar flores, por que não conseguiria com ela?

Não consegui. Numa segunda-feira ela saiu para fazer químio e não mais voltou. Se eu disser para vocês que entendi o que aconteceu, estou mentindo. Ela estava comigo e num piscar de olhos não estava mais. Já se passaram meses e eu pouco falo dela. Não falo por que dói. Não falo por que ela não está mais na cadeira da cozinha assistindo novela esperando eu chegar do trabalho para cozinhar alguma delícia (como ela dizia) enquanto conversávamos. Não falo por que me rasga o coração.
Tento pensar que a vida levou minha mãe antes que a coisa ficasse pior. Antes que a flor perdesse totalmente seu viço. Tento pensar que hoje ela enfeita e leva seu imenso amor e bravura a outros mundos. Outras almas que, assim como nós, precisam tanto de alguém que saiba amar.

Minha mãe sabia amar. Minha mãe sabia que tinha nascido para ser a flor mais linda do jardim de alguém. Ela foi e sempre será! E agradeço todos os dias por isso. Por que este "alguém" sou eu!

Te amo onde quer que esteja, Mãe. Nunca se esqueça disso.