quinta-feira, 17 de setembro de 2015
O Rei dos Rústicos
Se nós, os rústicos, vivêssemos em Regime Monárquico, este homem seria, sem sombras de dúvidas, o Rei! Seu nome é Antonio Jacob Filho, o "Seu Toninho", e ele é meu pai.
Nas minhas lembranças de infância ele sempre está sem camisa, vestindo sua tradicional bermuda, chinelos e com as guias, muitas delas, penduradas no pescoço. Meu pai era espírita. Um espírita de muitos centros e muitos Guias. Um descendente de sírios que honrava suas tradições ou pelo menos tentava e muito! O mundo foi e a modernidade nunca o atingiu. Não usava carteira, não tinha conta em banco, odiava computadores, usava celular por que o obrigavam. Vivia em função do trabalho, tirou férias uma única vez na vida. Detestava a palavra preguiça. Assim que alguém aqui em casa falasse sobre isso vinha sempre o sermão: "esta palavra é muito feia! Nunca pronunciei esta palavra na vida!". E era verdade, meu pai acordava todos os dias às quatro da manhã, tomava seu banho e partia para o canteiro de obra. E fazia isso assobiando! (Vou contar que ter alguém assobiando debaixo de sua janela às quatro da matina não era muito bacana não, viu?).
Homem de poucas demonstrações de carinho (abraços e beijos só em datas comemorativas e olhe lá) e dono de uma boca que, olha, fazia com que ele destruísse o mundo! O cabra não tinha papas na língua. Não importava quem fosse, onde fosse, se ele tivesse que dizer, dizia. Dono do famoso bordão "grande merda", esta era sua resposta para tudo o que contássemos a ele! "Pai, tirei oito na prova!" a resposta era bate pronto "Grande merda, não fez mais que sua obrigação". E assim era com tudo e todos. Nas reuniões de família chegamos a inventar um "Assunto cartaz", que continha todos os assuntos que ele não podia falar, para que a reunião não acabasse em briga! Com os anos o cartaz se tornou um outdoor, que de nada resolvia. Ele falava o que bem entendia, sempre seguido de um risinho e a frase mediante as caras feias: "Ué, não era para falar disso?".
Meu relacionamento com ele sempre foi péssimo. Por que se os rústicos vivessem num Regime Monárquico ele seria o Rei. Acontece que nós não nascemos para ter um rei. E nos batemos de frente a vida inteirinha por conta disso. Ele querendo que eu fosse como ele queria e eu querendo ser eu mesma, e claro, fazendo de tudo para me tornar o mais diferente possível das aspirações dele. Demorou muito tempo para eu perceber que éramos iguais, dois iguais tentando se tornar diferentes.
Como já disse, meu pai era espírita e viveu para sua religião a vida toda. Nas minhas memórias de infância também moram as imagens dos Santos e velas acesas que ficavam dentro do seu quarto, cresci com elas. Para mim, apesar de ser muito comum aquilo tudo, este sempre foi mais um dos motivos das nossas grandes brigas. Ele queria me ensinar e eu não queria aprender. Não queria seguir, não queria as obrigações. O ponto era: eu não queria ser igual a ele. Mesmo vendo o tanto de gente que ele ajudava com isso, mesmo vendo o quanto as pessoas gostavam de suas histórias, o tanto de gente que o procurava pedindo conselho. O quanto ele foi bom para tanta gente usando sua religião, eu não queria. Mas ele insistia. E muito.
Numa das muitas reviravoltas da vida (e minhas também), voltei a morar com ele. E logo me vi as voltas com as ordens, desbocamentos e a religião. Mas depois dos 35 anos a gente aprende a prestar mais atenção nas coisas, ou pelo menos tentar. Passei a prestar atenção nas histórias que ele contava, no jeito que ele agia, e descobri que debaixo daquela casca grossa existia um coração enorme. Que lutou a vida toda pelo amor dos filhos e dos netos (aahh os netos! os únicos seres que tiravam o Seu Toninho desta casca!). Que, do jeito dele, ele era amor também! Alí tinha amor, sim. Do jeito que ele sabia expressar.
A doença veio e, com isso, as obrigações dos Guias dele passaram a ser minhas. Não podia parar! Ele não queria que parasse. Deveria continuar até que ele ficasse bom, até que ele pudesse retomar. Passei a limpar as casinhas de Santo, acender as velas e tudo mais que deveria ser feito, enquanto ele me contava as histórias dos Orixás, sentado na porta da cozinha (as lindas histórias de quem tem fé!). Mas meu pai não ficou bom. A doença tragou ele como ele tragava o cigarro que nunca largava. Vi inúmeras vezes ele cheio de dor, levantando o braço aos céus e chamando por Deus. Meu pai nunca perdeu a Fé. Nem em seu pior momento. Num destes piores momentos foi a primeira vez que eu disse que o amava. A primeira vez em 41 anos. A primeira e última.
Meu pai me deixou no início deste ano. E logo depois de sua passagem veio o grande pulo do gato do Seu Toninho. A fé dele não podia parar! E a luta dele por conta de que eu entendesse sua religião e suas crenças e que alguém levasse isso adiante tinha a cartada final alí: Meu pai deixou sua herança espiritual para mim. Seus Guias se uniram aos meus Guias e hoje andamos juntos. As mesmas imagens que povoam minhas memórias de infância são aquelas onde rezo todas as noites. Meu pai me deixou a fé! E nunca poderia querer um presente melhor.
As contas das guias que adornavam seu pescoço ainda estão aqui, assim como o lugar onde ele orava para seu anjo da guarda. E é neste lugar que, todos os dias, acendo uma vela e digo: Pai, te amo onde quer que você esteja. nunca se esqueça disso.
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Lindo texto! =')
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ExcluirAdorei!!!
ResponderExcluirObrigada!! <3
ExcluirLindo Rita,quem o conheceu sabe que essa história é fiel em todas as suas linhas,parabéns, VC realmente conseguiu que eu voltasse no tempo e relembrei cada caso que VC escreveu.E quanto ao "seu Toninho" deve estar lá do outro lado com aquele seu sorrisinho....
ResponderExcluirObriagada!!! <3
ExcluirPoxaa..me emocionei muito pois tbm vivi com um rústico em minha vida (deixou esse plano em 2011) tivemos uma relação com muitos altos e baixos ele tbm me ensinou a ter fé e principalmente pensar com minha própria cabeça.....enfim agradeço por compartilhar esse texto e essa parte de sua vida ...me recordou e trouxe á tona muitas lembranças boas de minha vida...
ResponderExcluirGratidão (:
Poxaa..me emocionei muito pois tbm vivi com um rústico em minha vida (deixou esse plano em 2011) tivemos uma relação com muitos altos e baixos ele tbm me ensinou a ter fé e principalmente pensar com minha própria cabeça.....enfim agradeço por compartilhar esse texto e essa parte de sua vida ...me recordou e trouxe á tona muitas lembranças boas de minha vida...
ResponderExcluirGratidão (:
Que bom, lindona!! É isso que eu quero, que a gente divida as experiências!! obrigada, viu? <3
ExcluirObrigada vc!! E tá tudo muito showww aqui !!✩★✩♡♡
ExcluirObrigada vc!! E tá tudo muito showww aqui !!✩★✩♡♡
ExcluirTexto lindo, mostra para a gente que podemos e devemos amar uma pessoa, com suas qualidades e defeitos, orque assim somo também.
ResponderExcluirobrigada, prima!! <3
ExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirLindo texto. Vir aqui foi a primeira coisa que veio na minha cabeça hoje. Acredito que textos como os seus, não apenas nos dão bons momentos de leitura, mas eles nos conectam. As linhas escritas aproximam você aos leitores, pois nossas histórias se entrelaçam. São verdadeiras. Parabéns e obrigado, Rita! Agora vou ali tirar esses ciscos dos olhos...
ResponderExcluirObrigada, lindo!! <3
ExcluirLembro bem do Tio Toninho, morria de medo dele quando criança. Mas depois tb recebi conselhos dele que até hoje me recordo e levo comigo.
ResponderExcluirLembro quando veio em casa me benzer depois que sofri um acidente.
Realmente ele era um casca grossa de coração gigante.
<3
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