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terça-feira, 8 de setembro de 2015
A Zona de Conforto
Sempre gostei de desenhar. Na escola meus cadernos eram repletos de desenhos e quase nenhuma anotação do que realmente deveria ter (o que me rendeu milhares de broncas no decorrer do período). Finalmente chega a faculdade! Primeiro ano básico e depois poderia optar por Licenciatura em Artes Plásticas ou Desenho Industrial. Artes Plásticas!!! Meu mundo de tintas, cores, pincéis, lápis e traços se formava como eu havia imaginado! Até que um dia, entra um professor barbudo e mal encarado na sala e diz: "Ou vocês tem que ser muito bons no que vão fazer ou viverão de vender quadros na Praça da Sé". Aquilo foi como um soco na minha cara e me acompanhou até o final do ano. Assim foi inaugurada minha primeira fugida para a Zona de Conforto: me matriculei em Desenho Industrial. Eu nem tentei! Por conta de uma frase dita por um cara que, definitivamente, não deveria lidar com alunos em formação, desisti do que tanto sonhava e corri para dentro da bolha quentinha e gostosa que o curso de design me apresentava. Era novidade na época. Curso promissor....eu só tinha 20 anos, o que me impediria de tentar meu sonho? se não desse certo era só tentar outra coisa...eu tinha TEMPO!
Logo veio o primeiro emprego em uma agência especializada em catálogos. O dono era um gaúcho bravo...muito bravo...bravo a ponto de estraçalhar os óculos na mão quando algo dava errado. A ponto de amassar o jornal e morder quando algo dava errado. A ponto de tacar o porta durex na cabeça de funcionários que não atendiam ao pé da letra o que ele queria. Todos tinham medo do homem. Ao ouvir o barulho dos sapatos dele estalando no corredor, todos corriam, sentavam em seus lugares e ficavam mudos. Fiquei quase 5 anos lá. Aprendi muito, não vou negar, mas ia trabalhar todos os dias achando que a próxima cabeça a ser rachada por um porta durex seria a minha. Quase 5 anos indo trabalhar com medo. Mas, meu salário caía na conta certinho, não tinha que me aventurar em entrevistas de emprego...tudo bem sentir medo ou ser esculachada, né? Não! Não estava tudo bem, por que ninguém tem vontade de levantar da cama para sentir medo, ou fazer o que não gosta, ou ser esculachado..mas a gente vai por que algum infeliz inventou a droga da frase: É o que temos para hoje.
Por conta disso, nos escondemos dentro desta bolha delícia que é a Zona de Conforto. Mas não enxergamos que ela é nossa prisão particular, é o que nos separa de nossas vontades e sonhos. Ela é o medo! O medo de sorrir para aquele carinha bonito que pega metrô todos os dias no mesmo horário que você ou de dizer um oi para a garota parada no ponto de ônibus. Por que vai que fazemos isso e somos ignorados!!! Mas não fizemos, portanto nunca saberemos. Ela é o medo de sonhar, nada ultrapassa a camada fininha da Zona de Conforto. É o medo de agir e de se aventurar.
Quantos de vocês acordam e dizem:" aahh, mais um dia de trabalho! Que delícia!!"? ou quantos olham para o trabalho depois de feito e dizem: "aahh que orgulho!!"? Quantos de vocês sorriem para o carinha do metrô ou dizem oi para a garota do ponto de ônibus? Quantos de vocês se escondem atrás de relacionamentos frustrados por que: É o que temos para hoje? Ou deixam de escrever, pintar, desenhar, jardinar, costurar, compôr lindas músicas ou o que quer que seja por conta de tempo? Ou medo de se expôr? Quantos projetos vocês tem guardados? Quantos sonhos?
Meu pai repetiu a vida toda que seu sonho era ter um sítio para criar umas galinhas, uns porcos e um laguinho para pescar. Trabalhou muito, sempre. Tirou férias uma única vez na vida. Empurrou o dito sonho, por que nunca era a hora. A doença veio e ele se foi levando o sonho do sítio. Minha mãe sempre dizia que se arrependia de ter largado a profissão dela. Era cabeleireira antes de casar e tinha um puta orgulho disso. Passou a vida dizendo que se arrependia e não voltou! A doença veio ela se foi levando o dito do arrependimento com ela.
O grande lance deste espaço, é que cansei de criar coisas e vê-las engavetadas por que não tenho tempo ou por que preciso engolir o que tenho para hoje. Já criei linhas de roupas bacanudas, já criei uma marca de comidinhas, já sonhei muito em cima das minhas ambições. e engavetei tudo, porque a Zona de Conforto me impede de passar pela sua bordinha fina e quentinha. mas a vida tem tempo. Vejo todos os dias gente cheia de talento se esconder atrás de mesas fazendo coisas mecânicas. A gente nasce, vive e morre. Não existe como fugir disso. Mas existe sim como fugir da Zona de Conforto, por que ela pode ser macia, gostosa e quentinha, mas o grande orgasmo está fora dela!
E eu convido todos a tê-lo! Por que sentir tesão pelo que fazemos é um dos grandes segredos desta vidinha aqui! Este lugar é nosso. Não quero falar só de mim e dos meus trabalhos, quero falar de gente talentosa, corajosa e que não tem medo de se expôr. Gente que tem coragem de estourar a camada fininha e deixar bater o sol no rosto e o vento nos cabelos. Por que é para isso que estamos aqui! Para tentar!
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(quem sabe você, né?)
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