quarta-feira, 21 de outubro de 2015
A mulher da Bíblia
Terminal Bandeira, linha 8605-10, 7:30 am. Fones de ouvido no talo, caveira estampada na blusa, o bom e velho All Star, tudo conspirava para que aquele dia fosse mais um dia útil. Casa, trabalho, casa. Mas não seria, por que neste dia entrou em minha vida um dos personagens mais emblemáticos que já conheci: A mulher da Bíblia.
Subi no ônibus, passei a catraca, fiz cara de mal humor para as pessoas acumuladas na porta ao lado do cobrador que atrapalhavam a passagem (e certeza que não iriam descer...certeza...eram só pessoas pensando no seu próprio umbigo!), caminhei até onde deu e me posicionei em um lugar onde não atrapalhasse a passagem e distante das portas. Tocava Godsmack nos fones e eu já ensaiava minha dancinha habitual das manhãs no coletivo, quando tomei uma sacolejada no ombro. Algo havia batido em mim. Virei com cara de poucos amigos e dei de frente com uma mulher segurando uma Bíblia e que gesticulava muito em minha direção. Ela não parecia feliz com o que dizia, mas feras...música boa no fone, sete e meia da manhã...ônibus lotado...não ia deixar de ouvir o som batuta para ver o que a mulher tanto esbravejava. Quieta fiquei e segui meu caminho.
Na manhã seguinte, ao entrar no ônibus, reparei que lá estava a mesma mulher com a Bíblia na mão, em cima de uns degraus, gesticulando e falando muito. Pensei comigo "Ah, são aquelas pessoas que pregam sua fé nos coletivos". Neste dia, o lindo Terminal Bandeira não estava tão lotado. Só que ao procurar um lugar para me posicionar, passei por ela e pláu! Tomei de novo a sacolejada! O que não seria muito bizarro dentro de um ônibus, né? Pessoas em pé, ele em movimento, esbarrões acontecem! Acontecem se eu não tivesse visto que a linda senhora me bateu com a Bíblia! Sim! Com o Livro Sagrado! Já contei a vocês que minha paciência é um lixo e eu lido muito mal com pessoas que tentam "arrebanhar" outras pessoas, sabe? Isso em qualquer coisa, seja política, religião, estilo de vida, alimentação, qualquer coisa. Se você tem, ótimo! Se você faz, excelente! Mas guarde para você e fale caso alguém perguntar. Acho incisivo esta gritação no ônibus ou em qualquer outro lugar público, incomodante, chato pacas. Seja do assunto que for. Resolvi não ligar novamente, por que a coisa não iria prestar e fui adiante.
Pasmem senhores e senhoras...encontrei com a dita mulher a semana toda! E todos os dias ela me batia com o Livro e gesticulava falando algo. Até que me emputeci e tirei os fones ao passar do lado dela e com a Bíblia que batia no meu ombro veio a seguinte frase: "Você não ganhará o Reino dos Céus", seguida de uma cara séria olhando bem dentro dos meus olhos. A mulher tinha dito isso para mim a semana toda! E eu, dentro do meu mundo musical, nem havia ligado. O que seria aquilo? Um julgamento? Uma praga? Por que eu ente todas as pessoas que estavam alí? Quem era ela que tinha todo este poder para decidir uma coisa desta? Olhei para ela com a mesma intensidade, um momento de tensão se formou, até que ela desviou o olhar e continuou proferindo salmos, frases e orações aos restantes.
Nos dias que se passaram, reparei que ela dizia um lindo "Vai com Deus" a alguns passageiros. A outros ela dizia um salmo quando passavam. Percebi que as pessoas acompanhavam a oração que ela fazia. Mas eu, Rita, continuava tomando com a Bíblia e ouvindo a frase praguenta. Para aquela mulher, eu não ganharia nunca o Reino dos Céus. Num destes momentos olho no olho que tivemos, já cansada de nosso relacionamento esquisito, perguntei enquanto ela me mirava: "por quê?"...a resposta foi um sorriso de canto de boca e a frase: "Ele virá e lhe mostrará". Seguindo com a pregação aos demais. Se isso acontecesse nos meus áureos tempos, esta senhora teria engolido o Livro junto com as palavras dela. Sem dó nem piedade. Mas, a gente amadurece e isso é uma dádiva, né? Achei por bem que esticar aquilo com a pessoa não ia dar em nada. Ficaria alí ouvindo gritos e salmos e praguejamentos o que só pioraria minha situação. Ela já havia dado seu veredicto e pelo andar da carruagem, nada mudaria isso na cabecinha dela.
Pois bem, inseri a senhora no meu cotidiano. Nos encontramos praticamente todos os dias. E todos os dias tomo com a Bíblia no ombro. Alguns passageiros que também são frequentes no mesmo horário parecem esperar este momento. O momento que eu entro e tomo a praguejada. De uma maneira bem boba este acontecimento diverte a manhã deles. Já faz mais de um ano que isso acontece! Com uma única diferença da primeira vez: hoje, ela não fala mais a frase! Quando passo ela me bate com a Bíblia e sorri de canto de boca, um sorriso irônico, como se me dissesse com os olhos "Você sabe o que isso significa". As palavras ficam só entre eu e ela. Respondo o ato com um "bom dia". Ela segue em sua pregação e eu sigo na minha rotina. O significado disso tudo? Um dia Ele vem e me conta...um dia quem sabe.
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