quarta-feira, 14 de outubro de 2015

O Tempo.

o tempo

Como pessoa ansiosa e impaciente que sou, o Tempo sempre foi algo com que batesse de frente. Para mim, as coisas tem que ser resolvidas logo, rápido, não importa se mal resolvidas, mas que sejam solucionadas de uma vez. Nada deste negócio de ir dormir pensando em problema ou algo que gostaria de ter dito e não disse, ou coisas empurradas para amanhã. Num resumo rústico, sempre resolvi as coisas no olho do furacão, afinal, quem é este tal de Tempo para me dizer o que tenho que fazer ou não da vida? Acontece que existem coisas que não conseguimos solucionar rápido, nem do jeito porco! Existem coisas que temos que esperar, não tem jeito. E isso, para mim, é o símbolo da morte! Sem exagero, por que se tem uma coisa que detesto nesta vida é esperar. Na minha cabeça, esperar é perder Tempo!

Meu pai, quando me via numa aflição danada para resolver as coisas do meu jeito, colocava o dedo em riste e dizia: "Menina, o Tempo dá, o Tempo tira, o Tempo passa e a folha vira". Isso me deixava descaralhada da cabeça e ele, percebendo a dúvida, emendava: "Coloque nas mãos do Tempo, Ele tudo sabe, Ele tudo resolve". Estas frases dele eram seguidas de um ataque meu, sempre com a mesma ladainha: Aaaahhhh que fácil, né? Mas daí tenho que esperar! E preciso resolver até semana que vem! Como vou fazer isso? Não estou enxergando saída! Logo chega o dia e não sei o que fazer! blá blá blá...esbraveja...esbraveja...blá blá blá....e no final eu ouvia um "Ah, vai a merda vai. Não quer entender não entenda. Não sabe conversar." dava as costas e saía. (Se não conhecem meu pai ainda, leiam "O Rei dos Rústicos"...vocês entenderão). E assim fui indo a vida toda, resolvendo as coisas do jeito que achava que devia, do jeito que achava que me favorecia e, mesmo não favorecendo, que se resolvesse e saísse da minha frente. Não queria pensar. Não queria esperar. Não queria perder Tempo.

E de ventania em ventania eu fui. Perdi coisas que talvez não tivesse perdido se esperasse e que hoje me fazem falta. Remendei outras coisas de qualquer jeito, fazendo com que elas se tornassem frágeis demais para suportar o peso das minhas necessidades. Eu ventei e vivi, atropelando tudo o que era para a semana seguinte, o mês seguinte, o ano seguinte. Eu sempre atropelei o Tempo...até que ele me barrou. Por que alicerces frágeis não suportam prédios, e foi isso que contruí a vida toda, alicerces frágeis. Coisas que meu próprio vento derrubava. Coisas que não resistiam ao Tempo.

Foi quando me vi, com 40 anos, filho, contas, encargos, vida! E alicerces fraquinhos para sustentar. Estava colhendo alí os frutos da minha pressa. Neste dia, sentei no chão do quintal e chorei. Chorei pacas e quando já estava cansada de chorar, meu pai veio em minha direção e disse (com o dedo em riste, claro!): "Menina, tudo nesta vida depende do bom uso do Tempo. É sabendo administrar isso que muitas coisas se  modificam ou podemos modificar.  O Tempo é o início e o fim de tudo. Ele é o livre-arbítrio do caminho a seguir. Você está colhendo o que semeou, não importa em que tempo ou quando, mas aprenda uma coisa, Ele é imperturbável em sua cobrança."  A novela do meu blá blá blá nervoso já ia se iniciar, afinal veio aqui me ajudar ou acabar comigo?, quando ele me cortou continuando: Está vendo a árvore do jardim que você tanto cuida? Ela é o ciclo vital. O símbolo da paciência, do aprendizado constante e sem fim, da persistência. Está alí, há anos...no sol, na chuva, nas tempestades, na seca...mas está alí, firme. Por que ela é a conformação do que tem que passar. Ela sabe que tem que esperar para florescer. Este é o presente que o Tempo dá a ela.". E saiu.

Fiquei olhando a árvore um tempão e finalmente entendi o que ele tanto queria me dizer. Não adianta querer enganar o Tempo. Ele é uma infinita e generosa oferta, diária! Nós que temos pressa, nós que abreviamos ou empurramos as coisas por medo de enfrentar. Pensamos na semana seguinte, no mês seguinte, no ano seguinte, na velhice e esquecemos do agora. Mas Ele não esquece não. Está alí, diariamente, nos dando a oportunidade de viver e corrigir nossos atos. Sim! Corrigir! Por que precisamos abrir espaço para receber dons. Precisamos perder as flores para receber os frutos. Precisamos não enxergar o Tempo como nosso inimigo implacável, mas como nosso amigo mais fiel. Todo santo dia! Aprendi que não é o Tempo que resolve as coisas, mas ele nos ensina a lidar com elas, da melhor maneira possível, contando que saibamos lidar com Ele. E esperar!

Converso todos os dias com a linda árvore do jardim de casa e com ela tento aprender a respeitar Àquele que tudo rege. Peço equilíbrio para superar as dificuldades que semeei até agora. Peço que eu aprenda a viver um dia por vez. Peço que nunca mais deixe que Ele passe em vão. E sabem de uma coisa? Já ganhei um presente Dele! Mesmo ainda tendo nossas rusgas! Ganhei mais tempo para me superar. Ganhei o grande entendimento que minha luta nunca foi contra Ele, mas contra mim mesma.

Decidi ser amiga do Tempo. E que assim seja.



Para que não leu, tá aí o link para o Rei dos Rústicos:
http://rusticrules.blogspot.com.br/2015/09/o-rei-dos-rusticos.html

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